“ Na lista dos teus fins, venho no fim de uma página nunca publicada, e é justo que assim seja. embora saiba mexer palavras, e doer de frente, e tenha esse talento conhecido de acordar de manhã, dormir à noite, e ser, o dia todo, como gente, nunca curei, como previa, a lepra nem decifrei o delicado enigma da letra morta que nos antecede. por muito te querer, talvez pudesses dar-me um lugar qualquer mais adiante, despir-te de pudor por um instante e deixá-lo cobrir-me como um manto. “
António Franco Alexandre
“Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.”
Fernando Pessoa
“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.”
Carlos Drummond de Andrade
“Confesso que te amei, confesso
Não coro de o dizer, não coro
Pareço outra mulher, pareço
Mas lá chorar por ti, não choro
Fugir do amor tem seu preço
E a noite em claro atravesso
Longe do meu travesseiro
Começo a ver que não esqueço
Mas lá perdão não te peço
Sem que me peças primeiro
De rastos a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei perdida
Agora já não és
Na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor na vida
Não penses mais em mim, não penses
Que não estou nem para te ouvir por carta
Convences as mulheres, convences
Estou farta de o saber, estou farta
Não escrevas mais nem me incenses
Quero que tu me diferences
Dessas que a vida te deu
A mim já não me pertences
Mas lá vencer-me não vences
Porque vencida estou eu
De rastos a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei perdida
Agora já não és
Na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor na vida”
Amália Rodrigues