Ana Teresa Russ...'s profileO Meu Paraiso PerdidoPhotosBlogListsMore Tools Help

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    Sossega, coração! Não desesperes!

     

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    “Sossega, coração! Não desesperes!
    Talvez um dia, para além dos dias,
    Encontres o que queres porque o queres.
    Então, livre de falsas nostalgias,
    Atingirás a perfeição de seres.
    Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
    Pobre esperança a de existir somente!
    Como quem passa a mão pelo cabelo
    E em si mesmo se sente diferente,
    Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

    Sossega, coração, contudo! Dorme!
    O sossego não quer razão nem causa.
    Quer só a noite plácida e enorme,
    A grande, universal, solene pausa
    Antes que tudo em tudo se transforme.”

     

    Fernando Pessoa

    Se…

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    “Se escrevo o que sinto ...

    É porque assim ...

    Diminuo a febre de sentir.

    O que confesso ...

    Não tem importância,

    pois nada tem importância.

    Faço paisagens com o que sinto.”

    Fernando Pessoa

    Cada um Cumpre o Destino que lhe Cumpre

    pain_by_Lesta
    ''Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
    E deseja o destino que deseja;
    Nem cumpre o que deseja,
    Nem deseja o que cumpre.
    Como as pedras na orla dos canteiros
    O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
    Que a Sorte nos fez postos
    Onde houvemos de sê-lo.
    Não tenhamos melhor conhecimento
    Do que nos coube que de que nos coube.
    Cumpramos o que somos.
    Nada mais nos é dado. ''

    Ricardo Reis, in "Odes"
    Heterónimo de Fernando Pessoa

    Dorme Enquanto Eu Velo

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    “Dorme enquanto eu velo…
    Deixa-me sonhar…
    Nada em mim é risonho.
    Quero-te para sonho,
    Não para te amar.

    A tua carne calma
    É fria em meu querer.
    Os meus desejos são cansaços.
    Nem quero ter nos braços
    Meu sonho do teu ser.

    Dorme, dorme. dorme,
    Vaga em teu sorrir…
    Sonho-te tão atento
    Que o sonho é encantamento
    E eu sonho sem sentir.”

     

    Fernando Pessoa

    Durmo. Se Sonho, ao Despertar não Sei

    Sorrow_by_Al_KKWafyh  

    “Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
    Que coisas eu sonhei.
    Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
    Para um espaço aberto
    Que não conheço, pois que despertei
    Para o que inda não sei.
    Melhor é nem sonhar nem não sonhar
    E nunca despertar. “

    Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

    Teus olhos entristecem

    Sleep_by_Tris_san

    “Teus olhos entristecem
    Nem ouves o que digo.
    Dormem, sonham esquecem...
    Não me ouves, e prossigo.
    Digo o que já, de triste,
    Te disse tanta vez...
    Creio que nunca o ouviste
    De tão tua que és.
    Olhas-me de repente
    De um distante impreciso
    Com um olhar ausente.
    Começas um sorriso.
    Continuo a falar.
    Continuas ouvindo
    O que estás a pensar,
    Já quase não sorrindo.
    Até que neste ocioso
    Sumir da tarde fútil,
    Se esfolha silencioso
    O teu sorriso inútil. “


    Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

    O que Nós Vemos das Cousas São as Cousas

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    ''O que nós vemos das cousas são as cousas.
    Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
    Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
    Se ver e ouvir são ver e ouvir?
    O essencial é saber ver,
    Saber ver sem estar a pensar,
    Saber ver quando se vê,
    E nem pensar quando se vê
    Nem ver quando se pensa.
    Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
    Isso exige um estudo profundo,
    Uma aprendizagem de desaprender
    E uma seqüestração na liberdade daquele convento
    De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
    E as flores as penitentes convictas de um só dia,
    Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
    Nem as flores senão flores.
    Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores. ''

    Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXIV"
    Heterónimo de Fernando Pessoa

    Não Digas Nada!

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    Não digas nada!
    Nem mesmo a verdade
    Há tanta suavidade em nada se dizer
    E tudo se entender —
    Tudo metade
    De sentir e de ver...
    Não digas nada
    Deixa esquecer

    Talvez que amanhã
    Em outra paisagem
    Digas que foi vã
    Toda essa viagem
    Até onde quis
    Ser quem me agrada...
    Mas ali fui feliz
    Não digas nada.

    Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

    Ser Real quer Dizer não Estar Dentro de Mim

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    ''Seja o que for que esteja no centro do Mundo,
    Deu-me o mundo exterior por exemplo de Realidade,
    E quando digo "isto é real", mesmo de um sentimento,
    Vejo-o sem querer em um espaço qualquer exterior,
    Vejo-o com uma visão qualquer fora e alheio a mim.

    Ser real quer dizer não estar dentro de mim.
    Da minha pessoa de dentro não tenho noção de realidade.
    Sei que o mundo existe, mas não sei se existo.
    Estou mais certo da existência da minha casa branca
    Do que da existência interior do dono da casa branca.
    Creio mais no meu corpo do que na minha alma,
    Porque o meu corpo apresenta-se no meio da realidade.
    Podendo ser visto por outros,
    Podendo tocar em outros,
    Podendo sentar-se e estar de pé,
    Mas a minha alma só pode ser definida por termos de fora.
    Existe para mim — nos momentos em que julgo que efetivamente
                                   existe —

    Por um empréstimo da realidade exterior do Mundo

    Se a alma é mais real
    Que o mundo exterior como tu, filósofos, dizes,
    Para que é que o mundo exterior me foi dado como tipo da realidade"

    Se é mais certo eu sentir
    Do que existir a cousa que sinto —
    Para que sinto
    E para que surge essa cousa independentemente de mim
    Sem precisar de mim para existir,
    E eu sempre ligado a mim-próprio, sempre pessoal e intransmissível?
    Para que me movo com os outros
    Em um mundo em que nos entendemos e onde coincidimos
    Se por acaso esse mundo é o erro e eu é que estou certo?
    Se o Mundo é um erro, é um erro de toda a gente.
    E cada um de nós é o erro de cada um de nós apenas.
    Cousa por cousa, o Mundo é mais certo.

    Mas por que me interrogo, senão porque estou doente?
    Nos dias certos; nos dias exteriores da minha vida,
    Nos meus dias de perfeita lucidez natural,
    Sinto sem sentir que sinto,
    Vejo sem saber que vejo,
    E nunca o Universo é tão real como então,
    Nunca o Universo está (não é perto ou longe de mim.
    Mas) tão sublimemente não-meu.

    Quando digo "é evidente", quero acaso dizer "só eu é que o vejo"?
    Quando digo "é verdade", quero acaso dizer "é minha opinião"?
    Quando digo "ali está", quero acaso dizer "não está ali"?
    E se isto é assim na vida, por que será diferente na filosofia?
    Vivemos antes de filosofar, existimos antes de o sabermos,
    E o primeiro fato merece ao menos a precedência e o culto.

    Sim, antes de sermos interior somos exterior.
    Por isso somos exterior essencialmente.

    Dizes, filósofo doente, filósofo enfim, que isto é materialismo.
    Mas isto como pode ser materialismo, se materialismo é uma ilosofia,
    Se uma filosofia seria, pelo menos sendo minha, uma filosofia minha,
    E isto nem sequer é meu, nem sequer sou eu? ''


    Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
    Heterónimo de Fernando Pessoa

    Sentes, Pensas e Sabes que Pensas e Sentes

     

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    ''Dizes-me: tu és mais alguma cousa
    Que uma pedra ou uma planta.
    Dizes-me: sentes, pensas e sabes
    Que pensas e sentes.
    Então as pedras escrevem versos?
    Então as plantas têm idéias sobre o mundo?

    Sim: há diferença.
    Mas não é a diferença que encontras;
    Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
    Só me obriga a ser consciente.

    Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
    Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

    Ter consciência é mais que ter cor?
    Pode ser e pode não ser.
    Sei que é diferente apenas.
    Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

    Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
    Sei isto porque elas existem.
    Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
    Sei que sou real também.
    Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
    Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
    Não sei mais nada.

    Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
    Sim, faço idéias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
    Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
    E as plantas são plantas só, e não pensadores.
    Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,

    Como que sou inferior.
    Mas não digo isso: digo da pedra, "é uma pedra",
    Digo da planta, "é uma planta",
    Digo de mim, "sou eu".
    E não digo mais nada. Que mais há a dizer? ''

    Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
    Heterónimo de Fernando Pessoa

    Começo a Conhecer-me. Não Existo

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    ''Começo a conhecer-me. Não existo.
    Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
    ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
    Sou isso, enfim ...
    Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
    Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
    É um universo barato. ''

    Álvaro de Campos, in "Poemas"
    Heterónimo de Fernando Pessoa

    A criança que fui chora na estrada- Fernando Pessoa

     

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    "A criança que fui chora na estrada.
    Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
    Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
    Quero ir buscar quem fui onde ficou.
    Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
    A vinda tem a regressão errada.
    Já não sei de onde vim nem onde estou.
    De o não saber, minha alma está parada.
    Se ao menos atingir neste lugar
    Um alto monte, de onde possa enfim
    O que esqueci, olhando-o, relembrar,
    Na ausência, ao menos, saberei de mim,
    E ao ver-me, tal qual fui ao longe, achar
    Em mim um pouco de quando era assim."

    Álvaro de Campos em Passagem das Horas

     

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    (...) Vi todas as coisas, maravilhei-me de tudo,
    Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
    vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
    E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse,
    Amei e odiei como toda a gente, Mas para toda a gente isso foi normal e institivo. E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.
    (...)" 

    Citando Pessoa...

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    “Todos os meus escritos ficaram inacabados; sempre novos pensamentos se interpunham, associações de ideias extraordinárias e inexcluíveis, de término infinito … O Carácter da minha mente é tal que odeio os começos e os fins das coisas, porque são pontos definidos.”

    Às Vezes -








     
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       Às vezes tenho idéias felizes,
        Idéias subitamente felizes, em idéias
        E nas palavras em que naturalmente se despegam...

        Depois de escrever, leio...
        Por que escrevi isto?
        Onde fui buscar isto?
        De onde me veio isto?  Isto é melhor do que eu...
        Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta 
       Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos? "...

    Álvaro de Campos
    Heterónimo de Fernando Pessoa
     
     

    A morte chega cedo


     
     
     I_Wish_You__d_Let_Me_Die_by_firedaemon

    "A morte chega cedo,
    Pois breve é toda vida
    O instante é o arremedo
    De uma coisa perdida.

    O amor foi começado,
    O ideal não acabou,
    E quem tenha alcançado
    Não sabe o que alcançou.

    E tudo isto a morte
    Risca por não estar certo
    No caderno da sorte
    Que Deus deixou aberto".

    AMAMOS sempre no que temos

     
     
     
     
     
    Love_is____by_Antiseptic_kiss
     
     
             

    ''Amamos sempre no que temos
    O que não temos quando amamos.
    O barco pára, largo os remos
    E, um a outro, as mãos nos damos.
    A quem dou as mãos?
    À Outra.

    Teus beijos são de mel de boca,
    São os que sempre pensei dar,
    E agora e minha boca toca
    A boca que eu sonhei beijar.
    De quem é a boca?
    Da Outra.
    Os remos já caíram na água,
    O barco faz o que a água quer.
    Meus braços vingam minha mágoa
    No abraço que enfim podem ter.
    Quem abraço?
    A Outra.

    Bem sei, és bela, és quem desejei...
    Não deixe a vida que eu deseje
    Mais que o que pode ser teu beijo
    E poder ser eu que te beije.
    Beijo, e em quem penso?
    Na Outra.

    Os remos vão perdidos já,
    O barco vai não sei para onde.
    Que fresco o teu sorriso está,
    Ah, meu amor, e o que ele esconde!
    Que é do sorriso
    Da Outra?
    Ah, talvez, mortos ambos nós,
    Num outro rio sem lugar
    Em outro barco outra vez sós
    Possamos nos recomeçar
    Que talvez sejas
    A Outra.

    Mas não, nem onde essa paisagem
    É sob eterna luz eterna
    Te acharei mais que alguém na viagem
    Que amei com ansiedade terna
    Por ser parecida
    Com a Outra.

    Ah, por ora, idos remo e rumo,
    Dá-me as mãos, a boca, o ter ser.
    Façamos desta hora um resumo
    Do que não poderemos ter.
    Nesta hora, a  única,
    Sê a Outra. ''

    Fernando Pessoa

    Se penso mais que um momento- Fernando Pessoa

     

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    Se penso mais que um momento
    Na vida que eis a passar,
    Sou para o meu pensamento
    Um cadáver a esperar.
    Dentro em breve (poucos anos
    É quanto vive quem vive),
    Eu, anseios e enganos,
    Eu, quanto tive ou não tive,
    Deixarei de ser visível
    Na terra onde dá o Sol,
    E, ou desfeito e insensível,
    Ou ébrio de outro arrebol,
    Terei perdido, suponho,
    O contacto quente e humano
    Com a terra, com o sonho,
    Com mês a mês e ano a ano.
    Por mais que o Sol doire a face
    Dos dias, o espaço mudo
    Lambra-nos que isso é disfarce
    E que é a noite que é tudo.

    Entre o sono e sonho

     

    ''Entre mim e o que em mim
    É o quem eu me suponho
    Corre um rio sem fim.

    Passou por outras margens,
    Diversas mais além,
    Naquelas várias viagens
    Que todo o rio tem.

    Chegou onde hoje habito
    A casa que hoje sou.
    Passa, se eu me medito;
    Se desperto, passou.

    E quem me sinto e morre
    No que me liga a mim
    Dorme onde o rio corre —
    Esse rio sem fim.''

    Fernando Pessoa

    Deixei atrás os erros do que fui

     

     

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    "Deixei atrás os erros do que fui,
    Deixei atrás os erros do que quis
    E que não pude haver porque a hora flui
    E ninguém é exato nem feliz.

    Tudo isso como o lixo da viagem
    Deixei nas circunstâncias do caminho,
    No episódio que fui e na paragem,
    No desvio que foi cada vizinho.

    Deixei tudo isso, como quem se tapa
    Por viajar com uma capa sua,
    E a certa altura se desfaz da capa
    E atira com a capa para rua."