Ana Teresa Russ...'s profileO Meu Paraiso PerdidoPhotosBlogListsMore Tools Help

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    Meu mundo

    blog meia

    “O meu mundo não é como o dos outros ...

    Quero demais ...

    Exijo demais ...

    Há em mim uma sede de infinito ..

    Uma angústia constante ...

    Que nem eu mesma compreendo ...

    Pois estou longe de ser uma pessoa ...

    Sou antes uma exaltada ...

    Com alma intensa ...

    Violenta ...

    Atormentada ...

    Uma alma que não se sente bem onde está ...

    Que tem saudade ...

    Sei lá de quê !!!”

     

    Florbela Espanca

    Eu

    Look_at_me____by_underwear
    ''Até agora eu não me conhecia,
    julgava que era Eu e eu não era
    Aquela que em meus versos descrevera
    Tão clara como a fonte e como o dia.

    Mas que eu não era Eu não o sabia
    mesmo que o soubesse, o não dissera...
    Olhos fitos em rútila quimera
    Andava atrás de mim... e não me via!

    Andava a procurar-me - pobre louca!-
    E achei o meu olhar no teu olhar,
    E a minha boca sobre a tua boca!

    E esta ânsia de viver, que nada acalma,
    E a chama da tua alma a esbrasear
    As apagadas cinzas da minha alma! ''

    Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

    Escreve-me!

     

    I_write_Because_by_RikaRavish

     

    "Escreve-me! Ainda que seja só
    Uma palavra, uma palavra apenas,
    Suave como o teu nome e casta
    Como um perfume casto d’açucenas!

    Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
    Que te não vejo, amor! Meu coração
    Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
    Ninguém nega uma frase d’oração!

    “Amo-te!” Cinco letras pequeninas,
    Folhas leves e tenras de boninas,
    Um poema d’amor e felicidade!

    Não queres mandar-me esta palavra apenas?
    Olha, manda então… brandas… serenas…
    Cinco pétalas roxas de saudade…"

     

    Florbela  Espanca

    Aos olhos dele - FLORBELA ESPANCA ( 17/4/1916)

                      

                 

                Cross_myheart__by_SkankyDoodles

                " Não acredito em nada. As minhas crenças
                         Voaram como voa a pomba mansa;
                         Pelo azul do ar. E assim fugiram
                         As minhas doces crenças de criança.

                        Fiquei então sem fé; e a toda a gente
                        Eu digo sempre, embora magoada:
                        Não acredito em Deus e a Virgem Santa
                        É uma ilusão apenas e mais nada!

                        Mas avisto os teus olhos, meu amor,
                        Duma luz suavíssima de dor...
                        E grito então ao ver esses dois céus:

                        Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
                        Que criou esse brilho que m'encanta!
                        Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!"

                 

    Vaidade

     
     
    "Sonho que sou a Poetisa eleita,
    Aquela que diz tudo e tudo sabe,
    Que tem a inspiração pura e perfeita,
    Que reúne num verso a imensidade!

    Sonho que um verso meu tem claridade
    Para encher todo o mundo! E que deleita
    Mesmo aqueles que morrem de saudade!
    Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

    Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
    Aquela de saber vasto e profundo,
    Aos pés de quem a terra anda curvada!

    E quando mais no céu eu vou sonhando,
    E quando mais no alto ando voando,
    Acordo do meu sonho..."
     
     
    Florbela  Espanca

    Súplica



    "Olha pra mim, amor, olha pra mim;
    Meus olhos andam doidos por te olhar!
    Cega-me com o brilho de teus olhos
    Que cega ando eu há muito por te amar.

    O meu colo é arrninho imaculado
    Duma brancura casta que entontece;
    Tua linda cabeça loira e bela
    Deita em meu colo, deita e adormece!

    Tenho um manto real de negras trevas
    Feito de fios brilhantes d`astros belos
    Pisa o manto real de negras trevas
    Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!

    Os meus braços são brancos como o linho
    Quando os cerro de leve, docemente...
    Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te
    Nessa cadeia assim etemamente! ...

    Vem para mim,amor...Ai não desprezes
    A minha adoração de escrava louca!
    Só te peço que deixes exalar
    Meu último suspiro na tua boca!..."

     

    Florbela  Espanca

    Eu ...




    "Eu sou a que no mundo anda perdida,
    Eu sou a que na vida não tem norte,
    Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
    Sou a crucificada ... a dolorida ...

    Sombra de névoa tênue e esvaecida,
    E que o destino amargo, triste e forte,
    Impele brutalmente para a morte!
    Alma de luto sempre incompreendida!...

    Sou aquela que passa e ninguém vê...
    Sou a que chamam triste sem o ser...
    Sou a que chora sem saber porquê...

    Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
    Alguém que veio ao mundo pra me ver,
    E que nunca na vida me encontrou! "

     

    Florbela  Espanca

     

    Os versos que te fiz



    "Deixe dizer-te os lindos versos raros
    Que a minha boca tem pra te dizer !
    São talhados em mármore de Paros
    Cinzelados por mim pra te oferecer.

    Tem dolencia de veludo caros,
    São como sedas pálidas a arder...
    Deixa dizer-te os lindos versos raros
    Que foram feitos pra te endoidecer !

    Mas, meu Amor, eu não te digo ainda...
    Que a boca da mulher é sempre linda
    Se dentro guarda um verso que não diz !

    Amo-te tanto ! E nunca te beijei...
    E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
    Guardo os versos mais lindos que te fiz."

     
    Florbela  Espanca

    Amar!

     
    "Eu quero amar, amar perdidamente!
    Amar só por amar: aqui... além...
    Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
    Amar!  Amar!  E não amar ninguém!

    Recordar?  Esquecer?  Indiferente!...
    Prender ou desprender?  É mal?  É bem?
    Quem disser que se pode amar alguém
    Durante a vida inteira é porque mente!

    Há uma primavera em cada vida:
    É preciso cantá-la assim florida,
    Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

    E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
    Que seja a minha noite uma alvorada,
    Que me saiba perder... pra me encontrar... " 
     
     
     
     
    Florbela  Espanca

    Inconstância

     
    "Procurei o amor, que me mentiu.
    Pedi à Vida mais do que ela dava;
    Eterna sonhadora edificava
    Meu castelo de luz que me caiu!
    
    Tanto clarão nas trevas refulgiu,
    E tanto beijo a boca me queimava!
    E era o sol que os longes deslumbrava
    Igual a tanto sol que me fugiu!
    
    Passei a vida a amar e a esquecer...
    Atrás do sol dum dia outro a aquecer
    As brumas dos atalhos por onde ando...
    
    E este amor que assim me vai fugindo
    ă igual a outro amor que vai surgindo,
    Que há-de partir também... nem eu sei quando$..."
    
                                          
     Florbela Espanca
    

    A vida

    "É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
    Inútil o desejo e o sentimento...
    Lançar um grande amor aos pés de alguém
    O mesmo é que lançar flores ao vento!
    
    Todos somos no mundo <<Pedro Sem>>,
    Uma alegria é feita dum tormento,
    Um riso é sempre o eco dum lamento,
    Sabe-se lá um beijo de onde vem!
    
    A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
    Uma saudade morta em nós renasce
    Que no mesmo momento é já perdida...
    
    Amar-te a vida inteira eu não podia.
    A gente esquece sempre o bem de um dia.
    Que queres, meu Amor, se é isto a vida!"
     
     Florbela Espanca
    

    Amor que morre

     
     
    "O nosso amor morreu... Quem o diria!
    Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
    Ceguinha de te ver, sem ver a conta
    Do tempo que passava, que fugia!

    Bem estava a sentir que ele morria...
    E outro clarão, ao longe, já desponta!
    Um engano que morre... e logo aponta
    A luz doutra miragem fugidia...

    Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
    São precisos amores, pra morrer,
    E são precisos sonhos para partir.

    E bem sei, meu Amor, que era preciso
    Fazer do amor que parte o claro riso
    De outro amor impossível que há-de vir!"


        Florbela Espanca

    Se tu viesses ver-me...

    "Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
    A essa hora dos mágicos cansaços,
    Quando a noite de manso se avizinha,
    E me prendesses toda nos teus braços...
    
    Quando me lembra: esse sabor que tinha
    A tua boca... o eco dos teus passos...
    O teu riso de fonte... os teus abraços...
    Os teus beijos... a tua mão na minha...
    
    Se tu viesses quando, linda e louca,
    Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
    E é de seda vermelha e canta e ri
    
    E é como um cravo ao sol a minha boca...
    Quando os olhos se me cerram de desejo...
    E os meus braços se estendem para ti..."
    
    
           Florbela Espanca
    

    Ser Poeta

    
    
    
    "Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
    Do que os homens! Morder como quem beija!
    É ser mendigo e dar como quem seja
    Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!
    
    É ter de mil desejos o esplendor
    E não saber sequer que se deseja!
    É ter cá dentro um astro que flameja,
    É ter garras e asas de condor!
    
    É ter fome, é ter sede de Infinito!
    Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
    É condensar o mundo num só grito!
    
    E é amar-te, assim, perdidamente...
    É seres alma, e sangue, e vida em mim
    E dizê-lo cantando a toda a gente!"
    
                                       
    Florbela Espanca
    

    Mais Alto



    "Mais alto, sim! mais alto, mais além
    Do sonho, onde morar a dor da vida,
    Até sair de mim! Ser a Perdida,
    A que se não encontra! Aquela a quem

    O mundo nao conhece por Alguém!
    Ser orgulho, ser águia na subida,
    Até chegar a ser, entontecida,
    Aquela que sonhou o meu desdém!

    Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível
    Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
    A rutilante luz dum impossível!

    Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
    O mal da vida dentro dos meus braços,
    Dos meus divinos braços de Mulher! "

     
    Florbela Espanca