Ana Teresa Russ...'s profileO Meu Paraiso PerdidoPhotosBlogListsMore Tools Help

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    Pedro Paixão em «Muito, meu amor»

     

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    "És tão linda que nem dás vontade de foder, dizia. Eu não consigo. Dizia outras coisas, grande parte perde-se no ar, mas algumas, poucas, raras, ficam guardadas e voltam de vez em quando, nas alturas mais despropositadas, atrapalhando o que se está a fazer.    És tão linda que nem te consigo foder. Eu, pelo menos, não consigo. A beleza não seduz, assusta quase, leva-nos para um sítio que não sabemos onde fica, sabemos só que não é aqui. Era assim que ele tentava explicar, como quem precisa de uma desculpa, o que lhe estava a acontecer, sabendo de antemão que não ia conseguir. Se há coisa que não se sabe explicar é por que se gosta do que quer que seja - um perfume, uma flor, um beijo - e o que seja isso de gostar que traz duas coisas tão próximas que as põe misturadas numa só e as outras tão distantes que se apagam facilmente. (...)"

    "Todas as feridas serão material de poemas. Portanto não devem ser evitadas. De preferência mantê-las abertas, até por fim sararem. De outro modo não deixarão outra cicatriz que não seja umas linhas, uma página, no máximo. (...)"

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    "Porque quero eu que tu gostes de mim até não podermos mais?
    Para sentir o mistério de sermos só os dois a gostar assim e nunca mais ninguém?
    Para me ver livre de mim?
    Para apagar o mundo?
    Para ter a recompensa do prazer e o alívio que sempre ficou para trás?
    Para vencer, vingar, dominar o que quer que seja que ficou por vencer, vingar, dominar?
    Tudo isso ao mesmo tempo?
    Sim, talvez."

    Vida de adulto

     

    "Escrevia uma página.
    Relia-a e cortava logo alguns parágrafos. Voltava a lê-la e tirava algumas frases. Depois ia às palavras. Reparava na inutilidade de muitas e extraía-as. O que se encontrava após uma vírgula também podia desaparecer. Um ponto e vírgula geralmente indicia a ineficácia das frases que une, e eram retiradas.
    Continuava assim durante algum tempo.
    Se não fosse a sua mulher roubar-lhe a página, restaria uma palavra ou
    talvez nada.
    Ele precisava tanto de escrever como de apagar o que escrevia."

    Muito, meu amor

     


    "A porta está aberta. Empurra-a. Entra devagar. Agora, se prestares atenção, podes ver tudo o que se passa dentro do quarto. Tem cuidado, não faças barulho, tenta não respirar. Ela está deitada sobre a cama com o roupão de turco branco entreaberto. Ele está de joelhos a beijá-la entre as pernas. A luz é pouca mas suficiente. Ficaria bem numa cena de um filme, a preto e branco. Agora podes aproximar-te. Não batas no candeeiro de pé que apesar de apagado está à tua direita. Agora sim, podes fixar a cara dela. O que vês? O prazer. O prazer é coisa que se veja? Podia ser dor. Ouve agora o que dizem os amantes quando se agarram. Gritam. Não se entende. Ele beija-a todo o tempo. Uma nuvem de sangue tinge lentamente o roupão de turco branco. Tu olhas, nada mais. Agora já te podes retirar. Podemos começar por qualquer lado que tanto faz. Havemos de chegar lá. Não me perguntes onde. Quando chegarmos saberás. Agora é cedo para perguntar. Ouve só. "