Ana Teresa Russ...'s profileO Meu Paraiso PerdidoPhotosBlogListsMore Tools Help

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    Soneto de Separação

    Self_Love_by_goneobserver 

    ''DE REPENTE do riso fêz-se o pranto
    silencioso e branco como a bruma
    E das bocas unidas fêz-se espuma
    E das mãos espalmadas fêz-se o espanto.

    De repente da calma fêz-se o vento
    Que dos olhos desfez a última chama
    E da paixão fêz-se o pressentimento
    E do momento imóvel fêz-se o drama.

    De repente, não mais que de repente
    Fêz-se de triste o que se fêz amante
    E de sozinho o que se fêz contente.

    Fêz-se do amigo próximo o distante
    Fêz-se da vida uma aventura errante
    De repente, não mais que de repente. ''

    Vinicius de Moraes, in 'O Operário em Construção'

    Chega de saudade

      SENSUAL___Lux_by_onewordphoto

    "Vai, minha tristeza
    E diz a ela que sem ela não pode ser
    Diz-lhe numa prece
    Que ela regresse
    Porque eu não posso mais sofrer

    Chega de saudade
    A realidade é que sem ela
    Não há paz, não há beleza
    É só tristeza e a melancolia
    Que não sai de mim
    Não sai de mim
    Não sai

    Mas se ela voltar
    Se ela voltar
    Que coisa linda
    Que coisa louca
    Pois há menos peixinhos a nadar no mar
    Do que os beijinhos que eu darei na sua boca
    Dentro dos meus braços os abraços
    Hão de ser milhões de abraços
    Apertado assim, colado assim, calado assim,
    Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
    Que é pra acabar com esse negócio
    De você viver sem mim
    Não quero mais esse negócio
    De você longe de mim...
    Vamos deixar desse negócio
    De você viver sem mim..."

    Mensagem à Poesia de Vinicius de Moraes

    "Não posso
    Não é possível
    Digam-lhe que é totalmente impossível
    Agora não pode ser
    É impossível
    Não posso.
    Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.

    Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
    Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
    Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
    E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
    A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
    Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
    Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso
    reconquistar a vida
    Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
    Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
    Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou
    Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
    Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
    Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
    Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
    Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
    E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
    Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
    Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
    A terrível participação, e que possivelmente
    Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
    Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
    Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
    Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
    Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
    Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
    Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
    Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
    Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
    Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
    Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
    Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
    Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
    Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
    Há fantasmas que me visitam de noite
    E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
    No amanhã
    Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
    Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
    Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
    Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
    De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
    Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
    Por um momento, que não me chame
    Porque não posso ir
    Não posso ir
    Não posso.

    Mas não a traí. Em meu coração
    Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
    Envergonhá-la. A minha ausência.
    É também um sortilégio
    Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la
    Num mundo em paz. Minha paixão de homem
    Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
    Loucura resta comigo. Talvez eu deva
    Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
    O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
    Livre e nua nas praias e nos céus
    E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
    O meu martírio; que às vezes
    Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
    Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
    Mas que eu devo resistir, que é preciso...
    Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
    Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
    Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
    Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
    A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
    A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
    Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
    A quem foi dado se perder de amor pelo direito
    De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
    E uma menininha de vermelho; e se perdendo
    Ser-lhe doce perder-se...
    Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
    Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
    Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
    É mais forte do que eu, não posso ir
    Não é possível
    Me é totalmente impossível
    Não pode ser não
    É impossível
    Não posso."

                     O poema acima foi extraído do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 160.

    Ausência de Vinicius de Mpraes

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    "Eu deixarei que morra
    em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
    Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
    No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
    E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
    Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
    Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
    Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
    Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
    Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
    Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
    Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
    Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
    Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
    E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
    Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
    Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
    E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
    Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada."

    Vínicius de Moraes

     
     
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    "Se eu morrer antes de você, faça-me um favor. Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me levado. Se não quiser chorar, não chore. Se não conseguir chorar, não se preocupe. Se tiver vontade de rir, ria. Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão. Se me elogiarem demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais, defenda-me. Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam. Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo. Se falarem mais de mim do que de Jesus Cristo, chame a atenção deles. Se sentir saudade e quiser falar comigo, fale com Jesus e eu ouvirei. Espero estar com Ele o suficiente para continuar sendo útil a você, lá onde estiver. E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase : ' Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus !' Aí, então derrame uma lágrima. Eu não estarei presente para enxuga-la, mas não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar. E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha nova tarefa no céu. Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na direção de Deus. Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele. E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai, aí, sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver, em Deus, a amizade que aqui nos preparou para Ele. Você acredita nessas coisas ? Sim??? Então ore para que nós dois vivamos como quem sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito. Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo. Eu não vou estranhar o céu . . . Sabe porque ? Porque...
    Ser seu amigo já é um pedaço dele ! "